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João Roberto Ripper: IMAGENS HUMANAS.

Ripper não faz apenas imagens das pessoas, mas faz imagens junto às pessoas.
A sua fotografia é um olhar igualitário.
E destaca a dignidade daqueles que vivem em situações de extrema carência.
Segundo Robert Capa. “Se a sua foto não está boa o suficiente é porque você não chegou perto o suficiente”. Em Imagens Humanas, essa é uma regra frequente com relação à distância focal, mas não só isso. Se a frase de Capa pode ter uma abrangência maior, então o trabalho de Ripper serviria ainda perfeitamente para ilustrá-la.
Há proximidade no trato do autor com cada um que está em seu trabalho – ou talvez se deva dizer: com cada um que trabalhou junto a ele.
“Ao longo dos últimos 36 anos acredito ter desenvolvido uma linguagem autoral própria, marcada pela proximidade com o fotografado. Uma fotografia que é, em parte, uma extensão da minha personalidade, sem deixar de ser o reflexo daqueles que, assim como eu, envolvem-se em malabarismos econômicos de toda ordem, para sobreviver com dignidade”. São as palavras de Ripper.



Sua trajetória profissional ajudou na formação de uma classe de fotógrafos e no surgimento da fotografia de autor no país, além de criar espaços de grande autonomia para a documentação social. Esta carreira que cedo ganhou forma ao contribuir para o reconhecimento do fotojornalista na grande imprensa, logo passou a integrar as agências independentes e ONGs – consecutivamente a F4, Imagens da Terra, e Imagens do Povo. E ao longo dos seus 35 anos de estrada Ripper foi sempre fortalecendo sua ação em setores mais segregados do Brasil. Imagens Humanas reúne a coleção de seu trabalho pessoal, que sempre ocorreu em paralelo a seus coletivos fotográficos.
Hoje, Ripper administra a Agência Imagens do Povo, que orienta garotos do subúrbio carioca para se formarem como fotógrafos profissionais – dentro do Observatório de Favelas do Complexo da Maré. (Rio de Janeiro/RJ). Este é um projeto que traz “um olhar endógeno, capaz de mostrar a favela para além da visão estigmatizante (...) quase sempre associada a violência e tráfico de drogas”, como bem fala Dante Gastaldoni, fotógrafo parceiro, amigo e autor do prefácio do livro homônimo a esta exposição.
Dante observa também que Ripper é “sempre voltado para os outros e omisso em relação a si próprio”. E isto se confere nos fatos. Só agora, com Imagens Humanas, Ripper tem seu primeiro livro e sua primeira exposição individual.
Quem organizou e viabilizou essa iniciativa foi Mariana Marinho, da Dona Rosa Produções: ?Quando eu vi as fotos do Ripper, percebi que aquelas imagens iam muito além de uma linguagem documental, com forte acento de denúncia social. Aquelas fotografias eram, na verdade, obras de arte e, como tal, deveriam ser expostas para o maior número possível de pessoas”.
As imagens foram produzidas principalmente entre 1999 e 2004, e retratam as ligas camponesas, os povos indígenas e o trabalho escravo no Brasil. Como boas obras contam elas mesmas, diante do público, as suas histórias – que são muitas, e são fortes.
Venha conferir a ótica de Ripper sobre um Brasil que é às vezes deliberadamente oculto – como no caso do mercado escravo. Outras vezes, está apenas longe da vista da maioria de nós. Mas que vive com muita luta e intensidade.



Mestre Cartola de João Bittar.

CARTOLA,
Simplesmente

O fotógrafo João Bittar encontra em suas gavetas negativos inéditos de um show especial e resgata a memória de momentos que
valem uma vida.



Texto: João Bittar

Noite de quinta feira, 14 de dezembro de 1978, bastidores de uma casa de espetáculos qualquer na região central de São Paulo. A sala onde estou tem uns 16 metros quadrados, está mal iluminada e quase vazia, não fosse por um banco, um espelho, uma pia, e uma ou outra caixa de papelão abandonada. Ao contrário dos camarins das grandes estrelas, aquele era totalmente desprovido de qualquer resquício de luxos, caprichos e necessidades.

Nesse tosco e improvisado hors-scène nos fundos do palco, encontra-se um homem magro, de óculos escuros, terno cinza bem clarinho, camisa com gola aberta por cima do paletó e um anel saliente na mão esquerda. Angenor de Oliveira, o genial compositor Cartola, que fotografei no palco instantes antes cantando suas poderosas canções, fuma com languidez mais um dos seus intermináveis e elegantes cigarros de filtro branco. Dá uns goles no copo com conhaque (ou algo assim), sem marca, sem gelo.

Sua imagem se reflete no espelho e fotografo com parcimônia, mas sem parar – e sem falar. Me espanta tamanho despojamento e simplicidade. Tenho que me controlar para não sair berrando que aquele homem silencioso e solitário em seu camarim no intervalo do show mereceria um tratamento a altura da sua imensa grandeza artística. Talvez minha própria presença incomodasse o gênio com aqueles cliques impertinentes e contínuos. Calei-me, para poder manter o privilégio de continuar
fotografando. Não trocamos uma palavra sequer.

Não pedi permissão para estar ali. Certamente, ele deve ter notado meu indisfarçável e reverencial respeito por sua figura e, educado, me deixou à vontade. Naqueles breves instantes, estabeleceu-se uma cumplicidade incondicional entre o personagem e fotógrafo. Fiquei comovido com a lembrança desse encontro por vários dias. As cenas que ilustram estas páginas são momentos grandiosos (e raríssimos) que o destino pode oferecer a um fotojornalista. Graças a elas, num repente, eu posso compreender e medir a qualidade do tempo vivido.




O novo velho sambista.

Não se pode dizer que Cartola seja um membro da Velha Guarda. É mais que isso. Cartola é um pioneiro entre os sambistas do Morro da Mangueira.


Sofreu, em sua vida pessoal e artística, um ostracismo por longo tempo.
Mas depois teve na velhice o reconhecimento por suas composições – graças à descoberta do jornalista Sergio Porto (o dono do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta).
Cartola então gravou discos, e, ao lado de sua companheira Zica, teve suas músicas e sua imagem reverberadas pelo mundo no fim da vida; e que seguiram reverberando após sua morte.
Recentemente, em 2006, foi lançado o filme Cartola (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda), que deu conta de abordar um pouco sobre vida e obra do mestre mangueirense. E muito já foi divulgado e reproduzido a seu respeito. Sua imagem hoje é famosa: costuma ser usada até mesmo para ilustrar calendários, agendas... Estampas de camiseta.
Poderia parecer, portanto, que não podíamos descobrir novas facetas do falecido sambista.
No entanto João Bittar traz à Galeria Ímã algo inesperado: seis fotografias inéditas de Cartola!
O velho sambista no camarim. Mostrado de jeitos novos.
Um novo olhar. Ângulos diferentes, outros lados do sambista.



Venha conhecer!